Paulo Coelho apóia a Livros de Humanas: “É permitido trollar”

É permitido trollar,
por Paulo Coelho

[ Extraído de http://paulocoelhoblog.com/2012/08/12/e-permitido-trollar/ ]

Voltemos um pouco ao passado.

Mais precisamente, para uma pequena cidade perto de Estrasburgo, onde possivelmente existe um mosteiro. Uma grande peste ameaça destruir a cultura. Os monges já detectaram o perigo, e estão fazendo um esforço gigantesco para acabar com ela antes que se espalhe pelo mundo inteiro.

Quem é o responsável por tudo isso? Um charlatão, um polidor de espelhos que prometia “captar a luz sagrada das relíquias de santos”. Um expatriado, sempre devendo dinheiro aos seus vizinhos. Mas não basta atacar sua honra; é preciso também destruir a máquina infernal que inventou, e onde reproduziu, sem muito esforço, cópias em série de um poema. E se resolver fazer a mesma coisa com a Biblia, tratada com respeito e dignidade por homens que dedicaram a vida inteira a copiar exemplares únicos? O livro sagrado já poderá ser lido por todos – e isso fará com que surjam outras opiniões a respeito do que está escrito ali.

O polidor de espelhos, com sua infernal máquina onde as letras podem ser utilizadas mais de uma vez e em ordem diferente, continua seu trabalho apesar de toda a oposição. E decide que a Bíblia deverá ser o primeiro livro a ser impresso, talvez que desta maneira está preservando o saber ali contido. Em meados do século XV, saem os primeiros exemplares. O polidor de espelhos – hoje em dia conhecido apenas pelo seu nome de família, Gutenberg – morre na miséria. Mas seu invento chama a atenção dos ricos mercadores de Veneza, que o disseminam rapidamente. Pouco tempo depois, estão sendo impressos livros de todos os tipos; o pensamento começa a viajar, as heresias se multiplicam, a sabedoria se espalha e a poderosa Igreja – que mantinha a cultura debaixo de seu jugo – assiste impotente o que a história chamaria mais tarde de Renascimento.

Essa historia todo mundo conhece.

A cultura foi democratizada não porque apareceu um escritor capaz de inventar um estilo diferente – mas porque apareceu uma tecnologia nova. Cada mudança de tecnologia provoca gigantescas comoções sociais, que podem atrasar um pouco sua disseminação, mas que termina se impondo. Lembrem-se dos quebra-quebras da revolução industrial. Ou das greves de camponeses provocadas pelo advento da máquina de colher grãos.

Ou então, dando um salto para o momento presente, do surgimento da internet. A industria cultural é pega de surpresa. Em vez de procurar entender o que está acontecendo, chama um batalhão de advogados para resolver o problema. Os advogados proíbem um site de distribuição de música, e surgem vários para substitui-lo.

A massa “anárquica” de internautas se une em nome de uma causa única e faz com que congressistas americanos mudem da noite para o dia seus votos que aprovavam a lei que Hollywood tentava impor – conhecida pelo acrônimo de SOPA (Stop Online Piracy Act).

Essa história quase todo mundo conhece.

Mas será que conhecem o que está acontecendo no Brasil neste momento? O histórico do caso é simples e uso as palavras de um amigo meu para descreve-lo.

O blog “Livros de Humanas”, mantido por um estudante da USP, Thiago Candido, (@_tcandido ) compartilhava PDFs de livros adotados em cursos de ciências humanas. Muitos autores testemunharam que o compartilhamento aumentava as vendas dos livros (o que eu já sabia, mas isso fica para outra ocasião ). O responsável pelo blog recebeu agradecimentos em teses e dissertações, porque possibilitava que muita gente lesse o que jamais teria condições de ler se tivesse que comprar tudo. A Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) entrou com uma ação em nome de duas editoras, mas exigiu a retirada de todo o site do ar. Desde então, a Editora Contexto, uma das supostamente representadas na ação, já se desfiliou da ABDR.

Os autores que tinham livros pirateados lá e que já declararam apoio ao Livros de Humanas incluem: o maior antropólogo brasileiro, Eduardo Viveiros de Castro, o poeta Eduardo Sterzi, o poeta e jurista Pádua Fernandes, a ficcionista Veronica Stigger, o premiado escritor inglês Neil Gaiman, o designer gráfico e poeta André Vallias, a tradutora Denise Bottmann, o ensaísta e Doutor em Literatura Alexandre Nodari, a editora Cultura e Barbárie, a Azougue Editorial, o professor Pablo Ortellado, da USP, o professor de literatura latino-americana na Universidade de Tulane, Idelber Avelar etc. etc.

É uma lista imensa onde faltava o meu nome – simplesmente porque não sabia que isso estava acontecendo. Agora que sei, estou assinando embaixo.

Não embaixo de petições, que julgo absolutamente ineficientes; é muito fácil assinar e depois esquecer o assunto.

Estou assinando embaixo deste post, pedindo que bombardeiem a famigerada ABDR com uma cópia do mesmo, ou com algo que você mesmo(a) escreveu a respeito.

Aqui está o site deles: http://www.abdr.org.br/site/

e aqui o telefone: (011) 5052 5965

Neste caso, é permitido trollar.

Pablo Ortellado apóia a Livros de Humanas: Compartilhar livro é direito

Compartilhar livro é direito,
por Pablo Ortellado

[Extraído de http://www.gpopai.org/ortellado/2012/06/compartilhar-livro-e-direito/]

O fechamento do site Livros de Humanas, que indexava versões digitais de livros de humanidades para compartilhamento entre usuários, tem causado surpresa, indignação e controvérsia. Criado e mantido por estudantes universitários que não tinham meios econômicos para comprar livros, o site foi fechado após a Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (que representa várias grandes editoras) ajuizar uma ação demandando a retirada dos livros e o pagamento de multa por supostos danos. Disputa judicial à parte, surpreendi-me com o fato de muitos colegas da comunidade acadêmica não estarem suficientemente esclarecidos sobre a profunda injustiça desta ação e não terem ainda notado a admirável coragem do jovem mantenedor do site em defender o seu projeto sob o risco de um grande ônus econômico.

Por isso, gostaria de listar, muito brevemente alguns fatos relevantes para se entender em toda a sua complexidade os conflitos entre o direito público de acesso às obras e o direito patrimonial de editoras e autores. Esses fatos foram levantados em diversos estudos realizados nos últimos anos pelo grupo de pesquisa que coordeno, o GPoPAI – Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação:

Os estudantes não têm meios econômicos para comprar os livros.A afirmação é trivial e de fácil comprovação empírica. Qualquer estudante pode somar os preços de livros de leitura obrigatória das bibliografias de curso de todas as disciplinas no decorrer de um ano. Em pesquisa mais sistemática que realizamos em 2008, o custo em 10 diferentes cursos da minha unidade na USP variava entre R$ 3.344,75 e R$ 5.810,46. Para mais de 70% dos estudantes, esse valor era superior à renda mensal de toda a família.

As bibliotecas não têm os meios econômicos para comprar os livros. Como os estudantes não têm nem remotamente os meios para comprar os livros necessários, poder-se-ia esperar que as bibliotecas o fizessem. Tomemos o exemplo acima, da minha unidade, apenas para fins de argumentação. Para simplificar o cálculo, podemos estimar um custo médio de aquisição anual de livros por aluno de 5 mil reais no varejo, ou de cerca de 3 mil reais no atacado (já que estamos falando de compras de grande escala). Supondo que os alunos pudessem comprar 30% dos livros, a aquisição dos 70% restante custaria à unidade 8,4 milhões de reais. Como nosso orçamento anual para a compra de livros é de cerca de 300 mil reais, a aquisição apenas dos livros de leitura obrigatória da graduação tomaria 28 longos anos de orçamento inteiramente dedicado – sem qualquer compra de livros de literatura complementar, de pesquisa ou de pós-graduação. Não preciso dizer que muito antes do final dos 28 anos, a literatura estaria completamente obsoleta.

Um terço da base bibliográfica está esgotada. Levantamento em 36 instituições e 6 diferentes áreas do conhecimento que fizemos na pesquisa de 2008, assim como levantamentos posteriores que realizamos em diferentes bibliotecas da USP mostram recorrente e homogeneamente, em todas as áreas do conhecimento, que de 25 a 35% dos livros requeridos pelas disciplinas estão esgotados – e, portanto, não podem ser adquiridos no mercado. Como não podem ser comprados, esses livros só podem ser utilizados se fazemos deles cópias reprográficas ou digitais.

A educação é um direito. O capítulo sobre limitações da nossa lei de direito autoral (9.610/1998) já prevê casos nos quais é permitido o uso de obras sem autorização e sem o pagamento de royalties para fins de interesse público. Os casos ali citados (art. 46) podem ser estendidos por analogia a outros, já que uma decisão recente do STJ considerou-os apenas exemplificativos. Além disso, o direito à educação (e os livros são meios essenciais para a educação) é um direito constitucional (art. 6).

A repressão às fotocópias e ao compartilhamento é predominantemente extrajudicial. Como um estudo recente coordenado pela Universidade de Columbia mostrou, o combate à pirataria nas “economias emergentes” é predominantemente extrajudicial. Esse combate consiste no fechamento das inciativas “piratas” e no confisco de materiais sem que o mérito das acusações de violação de direito autoral seja julgado no judiciário. Como há enorme desproporção de recursos entre a indústria do direito autoral e os acusados, toda a questão é resolvida com a atividade repressiva e/ou com a ameaça de judicialização (que os pequenos não conseguem enfrentar). Isso permite que os detentores de direito imponham sua visão sobre o direito autoral, frequentemente de maneira abusiva, sem que o público ou os supostos “piratas” tenham condições de defesa. É exatamente essa situação assimétrica que o mantenedor do site está corajosa e pioneiramente enfrentando.

Os livros científicos de humanas são financiados predominantemente com recursos públicos. O mercado de livros científicos de humanidades é financiado com recursos públicos de pelo menos quatro maneiras: 1) como nosso estudo de 2008 mostrou, 86% dos autores brasileiros dos livros adotados por cursos científicos de humanidades trabalhavam em regime de dedicação integral à pesquisa e docência quando a primeira edição do livro foi lançada, de maneira que o livro é um subproduto de uma atividade financiada exclusivamente com recursos públicos; 2) além do salário dos autores, os custos da pesquisa (laboratórios, bolsistas etc) que gerou o livro também são predominantemente públicos, já que o Brasil tem um padrão de financiamento público de pesquisa que oscila em torno de 90% dos recursos; 3) o setor livreiro tem imunidade tributária, cujos custos para o tesouro foram estimados em cerca de um bilhão de reais anuais; 4) cerca de 10% do mercado de livros técnico-científicos é de editoras públicas, principalmente universitárias. Isso significa que os custos de produção dos livros já foram pagos pelo público. No entanto, na interpretação da ABDR, este público deveria agora ser obrigado a comprar novamente aquilo que ele já pagou para produzir.

Os autores de livros não têm um interesse econômico relevante.Isso deveria ser autoevidente, mas nem sempre é. No levantamento que fizemos com um dos departamentos de humanidades melhor avaliado pela CAPES, estimamos em 100 reais o pagamento mensal de royalties dos autores pelos livros lançados durante o ano. No entanto, com exceção de um, todos os autores receberam apenas cópias dos livros, ao invés dos royalties. Se isso acontece no topo da pirâmide de prestígio acadêmico, os valores recebidos por autores da base da pirâmide tende a ser ainda mais irrelevante.

Se os estudantes precisam dos livros para assegurar seu direito constitucional à educação; se eles não têm os meios econômicos para comprá-los; se um terço dos livros está esgotado; se os livros são financiados majoritariamente com recursos públicos; se os autores não recebem royalties ou se os royalties são irrelevantes; se a ABDR é intransigente e usa do poder econômico para impor uma visão repressiva, unilateral e injusta do direito autoral – não seria o caso de apoiarmos o site Livros de Humanas e começarmos uma campanha contra os abusos da ABDR?

Editora Contexto: Esclarecimentos sobre o caso Livros de Humanas

Abaixo, nota publicada no blog da Editora Contexto e assinada por Jaime Pinsky, diretor editorial e sócio fundado

[Extraído de: http://editoracontexto.com.br/blog/?p=1826]

Desde nossa fundação, nossa preocupação sempre foi “promover a circulação do saber” – não por acaso o próprio lema da Editora Contexto.

De fato, nós nos desfiliamos da ABDR, uma entidade que surgiu com o objetivo de proteger os direitos autorais das editoras filiadas. Porque éramos filiados a essa instituição? Por sermos uma empresa nacional, modesta, que não é mantida por verbas públicas, não pertence a nenhum conglomerado empresarial, nem é alavancada por instituições financeiras de qualquer espécie. Assim, não temos departamento jurídico próprio, nem advogados contratados rotineiramente em nossa folha de pagamentos. Temos, isto sim, funcionários que vivem do seu trabalho e precisam ser remunerados, razão pela qual precisamos vender os livros. Do contrário, a Editora fecha.

Neste caso específico, pelo que eu apurei, a ABDR detectou a cópia, sem autorização, de um livro inteiro. Ela solicitou que esse livro fosse tirado do site, exatamente por estar lá sem autorização. Em um segundo momento, houve a retirada do site do ar, o que nós não solicitamos. Assim que eu soube do problema (sou o diretor editorial, não faz parte da minha rotina acompanhar o dia a dia da área comercial), pedi para que comunicassem à ABDR que não concordávamos com a solicitação da saída do site do ar, se é que esta foi feita pela entidade. Pedimos, então, que o nome da Editora Contexto fosse retirado da ação. O advogado da ABDR comunicou que isso não era uma coisa fácil, por motivos de caráter burocrático. Solicitei, pois, que providenciássemos nossa desfiliação da ABDR.

Em suma, reitero que: 1 – em nenhum momento pedi que o site fosse tirado do ar; e 2 – solicitei, por escrito, a desfiliação de nossa editora da ABDR.

 

Cordialmente,

Jaime Pinsky
Diretor Editorial e Sócio-fundador

Sobre o acesso ao livro no Brasil

A Boitempo considerou violenta e não está de acordo com a ação da ABDR – entidade à qual não é filiada – que provocou a retirada do ar do blog Livros de Humanas. Nossa editora busca constantemente formas de tornar seus livros mais acessíveis ao leitor, sem prejuízo da qualidade editorial pela qual se tornou conhecida. Com esse fim, realiza com frequência eventos gratuitos com autores dispostos a disseminar as ideias que defendem e interessados na construção coletiva de alternativas. Grande parte desses autores têm sido trazidos ao Brasil às expensas da Boitempo e parceiros, casos de István Mészáros, Slavoj Žižek, David Harvey, Giorgio Agamben, Ellen Wood, Michael Löwy, Perry Anderson, Domenico Losurdo e muitos outros. Além disso, a editora traduz e edita textos de seus autores, que são disponibilizados gratuitamente aqui no Blog da Boitempo, realiza promoções periódicas, sorteios e vendas diretas em eventos acadêmicos com descontos de até 50% sobre o preço de capa.

Também acreditamos que o formato digital pode facilitar o acesso às obras, sobretudo devido às dificuldades de distribuição enfrentadas num país de dimensões continentais. O formato permite uma diminuição significativa no preço de capa. A Boitempo reduziu sua margem sobre o exemplar digital e se dispôs a praticar preços tão acessíveis quanto os do mercado internacional. Com essa nova política de preços de ebooks, nossos títulos digitais passaram a custar até 65% mais barato do que a versão impressa, uma redução acima da média brasileira em termos relativos e absolutos. A editora também pratica o nivelamento dos preços dos ebooks a uma faixa fixa que vai dos R$ 5,00 aos R$ 45,00, muitas vezes equivalentes a uma cópia impressa malfeita, e com uma qualidade muito superior à das cópias escaneadas, algo que só os originais têm.

Com essas medidas, a Boitempo busca aproximar seu público, composto por estudantes principalmente, dos quais depende para continuar publicando. Os processos e custos de uma pequena editora são pouco conhecidos pelos leitores em geral. Fazer um livro é sempre uma aposta. É preciso o investimento inicial que envolve um processo com muitas etapas entre o original (matéria-prima) e o livro na gôndola da livraria (produto final). Somente depois de um número significativo de vendas a editora começa a ter retorno, o que muitas vezes não chega a acontecer, casos nos quais é preciso arcar com o prejuízo. O retorno que a editora recebe (descontando custos, pagamento de direitos autorais, impostos, distribuição) é o que a mantém funcionando e o que permite publicar novos livros, alimentando assim o público-leitor. É uma cadeia produtiva de subsistência. Além de autores e editores, esse processo sustenta tradutores, revisores, diagramadores, capistas, isso sem entrar na parte de papel e gráfica, no trabalho de divulgação, vendas e estocagem.

O compartilhamento de livros copiados no meio acadêmico existe há muito tempo. A internet apenas expandiu o alcance desse tipo de atividade, mas o princípio e a motivação são os mesmos: universitários em busca de conhecimento acessível, o mais acessível possível. A Boitempo, desde a sua criação, sempre lutou pela democratização do conhecimento, inclusive daquele viabilizado por ela mesma, como já pontuamos. Dessa forma, seria no mínimo contraditório reprimir nossos leitores por buscarem exatamente o que defendemos. Responsabilizar o leitor, a parte mais frágil e também a mais importante da cadeia editorial, é uma covardia. Assim como é um equívoco alguns leitores culparem as editoras, especialmente as pequenas, pelo custo dos livros no Brasil. Há outros setores envolvidos na definição dos preços, como as livrarias e o governo. Sem uma política pública que incentive a  disponibilização, as casas publicadoras não poderão diminuir o preço do livro sem comprometer a sua estrutura. Para uma editora independente, na qual as vendas governamentais são insignificantes, como é o caso da Boitempo, as limitações são ainda maiores. Somos 100% a favor da mediação do Estado no mercado editorial, pois cultura e conhecimento não podem ser tratados como mercadoria. Discutir a disponibilização de conteúdo está na ordem do dia e esperamos que as demais partes, incluindo os leitores, também estejam dispostas a esse diálogo.

Fonte: http://boitempoeditorial.wordpress.com/2012/06/11/sobre-o-acesso-ao-livro-no-brasil/

Editora Contexto se desfilia da ABDR, por Ricardo Lísias

EDITORA CONTEXTO SE DESFILIA DA ABDR!!,
por Ricardo Lísias
[Extraído de http://www.facebook.com/photo.php?fbid=368933076493496&set=a.217040428349429.60500.100001304215777&type=1]

Caros amigos e leitores: depois da retirada do ar, via instrumento jurídico, do site livrosdehumanas.org e de um pedido de indenização milionária a um estudante de Letras, intuí que devia haver algo de estranho em todo o imbróglio, pois ele envolvia um intelectual conhecido, o professor José Luiz Fiorin, e uma editora voltada para livros acadêmicos e/ou de divulgação do conhecimento.

Pois bem: em contato direto com o professor Fiorin, ele me disse que não autorizou nenhuma ação por causa dos livros dele. Agora, estou também em contato direto com o professor Jayme Pinsky, da Editora Contexto, que acaba de me informar que a) nunca autorizou nenhuma ação em nome de sua editora; b) mais ainda: a Contexto está se desfiliando da ABDR!!

Quero portanto agradecer a atitude dos professores Pinsky e Fiorin, que demonstram com isso não apenas terem em primeiro lugar o ideal da circulação do conhecimento, como também estar conscientes de seu papel como intelectuais!

Por fim, comunico que Pinsky me escreveu dizendo que não concorda com a retirada do site livrosdehumanas.org do ar e que Fiorin também me escreveu dizendo que deseja que o site volte ao ar o mais rápido possível. Os dois são contra a ação que os cita!!

Escolhi para fechar essa mensagem um livro da Editora Contexto que trata de Direitos Humanos…

Um bom resto de fim de semana prolongado e um abraço,
Ricardo Lísias.

PS: peço o máximo compartilhamento dessa mensagem.

- Ricardo Lísias

Prof. José Luiz Fiorin diz não ter conhecimento da ação da ABDR

DE UMA PROPOSTA DE BOICOTE AOS SINCEROS PARABÉNS AO PROFESSOR JOSÉ LUIZ FIORIN,
por Ricardo Lísias

[Extraído de http://www.facebook.com/photo.php?fbid=366962436690560&set=a.217040428349429.60500.100001304215777&type=1]
Caros amigos e leitores, há uns dias coloquei aqui uma proposta de boicote aos livros do professor José Luiz Fiorin, por conta da citação de um deles, Elementos de análise do discurso, em ação judicial que causou a retirada do ar do site livrosdehumanas.org e também um pedido de indenização. Repito outra vez: o site não tem fins lucrativos!

Enfim, o professor Fiorin me procurou por email e perguntou o que estava acontecendo. Ele não sabia da ação!! Eu expliquei a situação e ele entrou em contato inclusive com a editora do livro, Contexto, também citada. De novo, a mesma situação: a Contexto não sabia da ação…

O professor Fiorin, que agiu como um verdadeiro intelectual, não autorizou nenhuma atitude jurídica em seu nome e nem de seus livros. E ele também afirma ser absolutamente contrário à ação da ABDR e a qualquer iniciativa que perturbe a difusão do conhecimento. Assim, minha proposta de boicote foi um equívoco, causado pelo absurdo da própria iniciativa jurídica contra o site, que aos poucos vai se mostrando ilegítima.

Agora no final do dia, vou comprar um livro do professor Fiorin e, em sinal de agradecimento pela atitude digna, um outro da Editora Contexto. Depois de 15 anos, voltarei a estudar linguística. Parabéns e obrigado, professor!

Peço que esse texto seja compartilhado pelo máximo número de pessoas.

Boa tarde de chuva para todos,

- Ricardo Lísias

Fonte: http://www.facebook.com/photo.php?fbid=366962436690560&set=a.217040428349429.60500.100001304215777&type=1

“ABDR X autores X leitores”, por Josélia Aguiar, no blog Livros Etc.

ABDR X autores X leitores,
por Josélia Aguiar, para o blog Livros Etc

[Extraído de http://livrosetc.blogfolha.uol.com.br/2012/06/05/abdr-x-autores-x-leitores/]

O blog não voltou ao tema desde que publicou a entrevista do rapaz que criou e administrava o Livros de Humanas, site sem fins lucrativos que compartilhava textos incluídos na bibliografia da FFLCH-USP e saiu do ar depois de uma ação movida pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos-ABDR.

O blog não voltou ao tema 1-um pouco por falta de tempo para encontrar um novo ângulo que ajudasse no debate, 2-um pouco porque acreditava que outros sites e veículos avançariam muito mais.

Sim, houve avanços: Direito de Acesso é o site que reúne agora tudo que sai sobre o tema na internet e no impresso, vá por aqui;  no “Globo” do último sábado, um grupo de intelectuais publicou essa carta aberta em defesa ao Livro de Humanas, vá por aqui; num texto hoje do Xis do Problema, Felipe Lindoso reconhece a importância do movimento mas aponta o que considera alguns equívocos da carta, vá por aqui.

O blog acredita que este é um dos principais, senão o maior, debate cultural do país hoje.

Por tudo o que li até agora e entendi do caso, não me parece que editoras, muito menos autores sejam beneficiados pela ação da ABDR. Ao contrário. Não creio que o direito autoral ou comercial deva ser abolido; apenas que há muitas nuances aí, e, enquanto não se encontra uma solução nova e inteligente para esse impasse, os mais prejudicados são os leitores.

***

O episódio desta tarde: o professor José Luiz Fiorin informou a interlocutores do movimento em defesa do site Livros de Humanas que não sabia que ele e seu livro eram citados na documentação reunida pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos-ABDR.

Fiorin disse que não autorizou nenhuma ação jurídica em seu nome nem de seus livros. E  também afirmou ser contrário à ação da ABDR e a qualquer iniciativa que perturbe a difusão do conhecimento.

-Josélia Aguiar

Fontehttp://livrosetc.blogfolha.uol.com.br/2012/06/05/abdr-x-autores-x-leitores/

Milena Piraccini Duchiade apóia a Livros de Humanas

Sou Milena Piraccini Duchiade, livreira, filha de pai e mãe livreiros, da Livraria Leonardo da Vinci, e apóio o Blog Livros de Humanas, pela mesma razão que canso de dizer aos meus clientes para frequentarem bibliotecas,  como as das universidades públicas, as da PUC, a Mediateca da Maison de France ou o Instituto Goethe.
Por que, como dizia Millor, um livro puxa outro, logo, quanto mais se ler, melhor.
Por que, como dizia Quevedo, “leer es escuchar a los muertos con los ojos”, e um livro sem leitores desaparece.
Por que livros essenciais nas áreas de filosofia, história, letras e ciências sociais encontram-se esgotados, ou nunca foram e nunca serão publicados em nosso país.
Por que as tiragens são pífias, a distribuição precária, os pontos de venda escassos, as bibliotecas pobres  e os leitores raros.
Por que medidas policiais não podem ser uma solução para proteger autores, editores ou livreiros.
Por que não é possível i gnorar  as transformações que estamos vivendo nos modos de difundir o conhecimento.
É preciso discutir novos acordos, novos arranjos, novas regras.
É bom começar logo.

[Clique aqui para ler a carta de apoia da livraria Leonardo da Vinci]

A livraria Leonardo Da Vinci apóia a Livros de Humanas

Por que apoiamos o Livros de Humanas,
por Milena Piraccini Duchiade
Livreira da Livraria Leonardo da Vinci, fundada em 1952 por Vanna e Andrei Duchiade

http://www.twitlonger.com/show/hmooq0

Na condição de livreira de segunda geração, filha de pai e mãe donos de livraria, sinto-me pessoalmente envolvida nas discussões a respeito da liberdade de acesso a livros via internet. As reações desencadeadas pela retirada do ar do blog Livros de Humanas, em especial o artigo “Em defesa de uma biblioteca virtual”, assinado por um grupo significativo de professores, merecem reflexão aprofundada.

É inegável que estejamos vivendo uma fase de transição no comércio e circulação de livros, e que muito ainda há de mudar.

Antes de mais nada, é preciso destacar algumas especificidades do que acontece na área do livro e da leitura em nosso país. Lê-se pouco entre nós. Dados da CBL e da ANL indicam que a venda de livros encontra-se estagnada ou mesmo em declínio. A pesquisa “o Livro no Orçamento Familiar” (LOF), feita com base na Quarta Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE em 2002-2003, mostrou que menos de 10% das famílias brasileiras compraram algum livro não didático, seja religioso, infanto-juvenil, ou de qualquer tipo, durante o ano. Dito de outro modo: mais de 90% das famílias brasileiras simplesmente não gastaram nada com livros.

Por outro lado, as editoras, de modo paradoxal, não cessam de publicar novos títulos, na busca desenfreada para emplacar algum “best-seller”, ao mesmo tempo em que simplesmente retiram do catálogo livros de giro mais lento. Ora, livros são, por definição, produtos lentos. Lentos para serem escritos, lentos para serem lidos, lentos para serem vendidos. Em contrapartida os livros, especialmente aqueles da área de humanas, têm vida longa. Ou seja, um bom fundo de catálogo seria, em tese, capaz de garantir a sustentação de uma editora.

Digo que os livros são longevos, porém não no Brasil. Aqui, meros cinco anos bastam para transformar um título de ciências humanas em raridade. Muitas vezes, é mais fácil um autor publicar sua primeira obra do que lograr reedição. Afinal, pensa o editor, se levou dois anos para vender 1000 ou 2000 exemplares, não vale a pena reeditá-lo.

Temos então o circuito paralelo dos sebos, no qual obras “escassas” alcançam preços muitas vezes superiores a duas ou três vezes o preço original. A alternativa de encontrar nas bibliotecas universitárias as obras que sumiram das prateleiras, solução lógica para permitir o acesso, esbarra na indigência da grande maioria dos acervos.

Diante deste quadro, como ser contrário ao “download” de títulos necessários para aqueles, heróica minoria, que ainda insistem em ler e estudar ciências humanas no Brasil?

Como bem lembrou Felipe Lindoso, em seu artigo no Publishnews de 29/05/12, “não existe almoço grátis”, os fabricantes de suportes eletrônicos, bem como os provedores de acesso, festejam a explosão no consumo de apetrechos cada vez mais sofisticados, caros e de “obsolescência programada”, todos famintos de “conteúdos livres”.

Como então encontrar o equilíbrio entre a justa remuneração ao criador intelectual, o reconhecimento do trabalho específico do editor, e o direito de acesso dos leitores, objetivo último de qualquer obra? Nem falo aqui do trabalho do livreiro, que consiste em garimpar, na profusão incessante de títulos, os mais relevantes e interessantes, de modo a tentar surpreender o potencial leitor, e levá-lo a comprar um livro cuja existência ele sequer suspeitava.

Não tenho respostas prontas, mas sei que o modelo atual não poderá continuar tal como está. Soluções de caráter policial estão, a meu ver, fadadas ao fracasso.

A prensa de Gutenberg revolucionou a circulação das ideias, e contribuiu para o desenvolvimento da Renascença, do Iluminismo e do mundo como hoje o conhecemos. Vivemos hoje os alvores de uma nova era, como chamou a atenção Roger Darnton.

Reconhecer os limites e imperfeições de nosso mercado editorial, a insuficiência de nossas bibliotecas, a escassez de pontos de venda, as dificuldades e custos dos transportes e as urgências dos raros porém teimosos leitores é apenas um primeiro passo para o enfrentamento franco e honesto dos problemas que nos afligem.

Somos todos elos da cadeia que produz e difunde o conhecimento.

Se estamos ou não à altura dos novos desafios, só o tempo dirá.

Milena Piraccini Duchiade
Livreira da Livraria Leonardo da Vinci, fundada em 1952 por Vanna e Andrei Duchiade